terça-feira, 23 de junho de 2009

Antíntese do Supra-sumo 2ª parte

Na metade do caminho

O meu filho tem oito anos de idade, vai para a escola a pé e com fome, atravessando dois rios e cinco fazendas que pertencem ao coronelzinho.

Coronelzinho é dono e precisa cuidar dos mais de dez mil hectares de pasto e cana que conquistou com o aço das balas e as mãos sujas de dinheiro governo. Era costume invadirem o território do homem, por três vezes conseguiram ocupar partes das terras. O coronelzinho passou então a contratar qualquer um que soubesse usar arma de fogo e facão, eram mandados diretamente pro serviço sem nenhuma garantia.

A segurança das terras dele melhorou, mas em compensação botou os moradores e as crianças em risco, pois o senhor coronel contratava assassinos e estupradores sem nem do passado desses homens saber.

Acabavam entrando para as fileiras de jagunços inescrupulosos, que só no mês passado violentaram três meninas e até um menino.

Os pais devam queixa, mas infelizmente a policia não conseguia cumprir os mandatos, o coronel tem as costas quentes e zela muito por sua imagem perante os empregados, comparsas e adversários.

Alguns jagunços de valores morais elevados descobriram quem era o pilantra pedófilo. Atiraram em suas mãos e pés, depois o enterraram vivo em um formigueiro.

Achei foi é pouco esse pervertido safado comer formiga.
Minha mulher sempre reza pra Jesus e santa Maria mãe de Deus pela segurança do nosso caçula, o perigo não acaba nunca.
Meu filho acorda às quatro horas da manhã pegando friagem, se arriscando ao atravessar uma rodovia de transito intenso; veículos pesados; carros em alta velocidade; motoristas embriagados ou sonolentos que cruzam dia e noite a rodovia que o meu moleque tem que atravessar duas vezes todos os dias para ter uma educação e talvez no futuro ser alguém na vida. Ele passa manhã toda ouvindo uma professora mal formada, porem gentil, o lanche no recreio é um pão e um copo de leite, ao meio dia almoça um mexido de carne, arroz e feijão, o menino sai de lá exausto, mas mesmo assim me encontra na roça todos os dias para me ajudar a complementar a renda da casa. Cortar cana é um trabalho duro e varias vezes o vi desmaiar de cansaço ou desidratação, só quando anoitece é que o acaba o serviço, nós pegamos o ordenado do dia e voltamos pra casa com a janta que é comprada na venda que é também do coronel.

Tripas de bode, farinha de mandioca, arroz e sal. Foi o que deu, a mãe é que prepara o bucho do animal na farinha e em seguida ferve o arroz.
Meu menino termina a refeição, come uma rapadura enquanto vemos o natal dos ricos na televisão preta e branca, ai dele se não estiver na cama as nove horas! O bichinho vai imediatamente para cama de palha forrada que eu mesmo fiz, água só tem à de beber então ele vai dormir sem se banhar. Pra sorte dele hoje não bebi, quando bebo não consigo me controlar, sempre acaba sobrando pra minha mulher ou pra ele quando tenta interferir. Amo meu garoto e minha mulher, o problema é que também gosto de cachaça e quando minha mulher começa reclamar das minhas bebedeiras e gastanças, eu simplesmente não consigo me controlar. Bato nela e depois acabo me arrependendo.
Eu tenho outros cinco filhos que já atingiram a maioridade, todos homens do campo, quando passamos o ano novo e o natal juntos, o bode mais velho do rebanho acaba indo pra panela, bebemos, comemos e nos divertimos.

Meu garoto fica muito feliz, pois ganha presentes de todos seus irmãos. Meu mais velho tem vinte oito anos e já perdeu todos os dentes da frente assim como eu quando tinha essa idade, ele é roceiro em outra cidade e esta pensando em migrar para o garimpo. Ele vem trazendo duas galinhas debaixo do braço, acho que deve ter roubado as aves no caminho para dar de presente para familia.
O meu segundo filho mora na cidade grande e é o mais esperto de todos. Espera ganhar uma bolsa para fazer sua sonhada faculdade de agronomia, esta com vinte cinco anos de idade é o filho do qual tenho mais orgulho. Seus dentes são brancos e não vão cair como os meus. Ele pode até virar um doutor algum dia!
Chegou com um brinquedo paraguaio de um robô que mexia as pernas e os braços, piscava luz de um revolver e sempre depois do segundo passo acabava caindo no chão, meu menino não iria ver um brinquedo caro desses nunca, mas graças ao tio ele agora tem um favorito. Trouxe também um relógio de ponteiro para mim, que ainda não sei muito bem como usar e uma maquina de costura que ele comprou bem baratinho de uma fabrica que faliu, e esse foi pra minha mulher, que agora pode entrar na cooperativa para complementar nossa renda, que o nosso menino caçula não tenha que trabalhar e tenha tempo de jogar bola. É um sonho que eu e ele temos em comum... Que ele vire um jogador de futebol e nos tire da miséria.
Meu terceiro filho é o que tenho mais brigas, amo ele do mesmo jeito que amo o primeiro, mas ele tinha que se juntar logo aos comunistas? Ele tem vinte e três, ainda tem todos os dentes e vem carregando mudas, seis mudas, três delas são de ipê amarelo para enfeitar o quintal da frente, enquanto as outras três eram de soja destinadas a algo que ele defende muito, é uma tal agricultura familiar, todo ano ele trás um tipo de muda diferente, uma para cada membro. Por um certo tempo é bom, o problema é quando não chove por meses e o sistema de drenagem dos açudes vai todo para as lavouras do coronel. Água sobe e muito de preço. E dai? E dai que fica difícil até comprar água de beber.
Meu quarto filho é no fim das contas o rapaz mais parecido comigo, casou-se fugido, com a menina mais linda desta cidadezinha, bem como eu tive que fazer com a mãe deles quando eu tinha a idade dele, dezesseis. Ele trabalhou comigo no campo por algum tempo, mas logo foi seduzido pelo garimpo, justamente como eu fiz quando eu tinha dezesseis, larguei mulher e filhos para trabalhar no garimpo por um ano, eu nesse ano enriqueci, fiz fortuna, mandava todo mês uma carta com um salário mínimo para as crianças não passarem fome, enquanto isso eu gastava todo o dinheiro do ouro e das pedras que achava com prostitutas baratas, fumava cinco pedras de craque, tomava três litros de cachaça por dia, e foi exatamente nessa idade que ele fez o mesmo, se juntou a um bando de garimpeiros itinerantes com grandes sonhos, mas sem a menor ideia do como as coisas funcionam nesse negócio.
Meu quarto rebento tem agora vinte anos de idade, trabalha em uma plantação de cana assim como o pai, largou o garimpo encontrou Jesus enquanto era em tempo, e graças ao todo poderoso esta fora do perigo de passar o resto da vida como bandido, ser encarcerado e currado em uma prisão super lotada. Passou inclusive por uma fase complicada em sua vida, foi mais ou menos o seguinte...
Quando a menina mais bonita daqui do povoado apaixonou-se por meu filho, ela ainda estava noiva do doutor deputado filho do senhor coronel.

Menina que nasceu ruiva, com olhos verdes feito grama jovem, braquinha e linda de morrer. Foi abandonada por algum motivo que não se sabe. Sozinha e sem uma carta de adeus, a garota não tinha nem nome quando começou a viver da caridade de pessoas da igreja, viveu de favor no convento até o seis anos de idade e só pelo fato de ser muito bonita, atraiu atenção de um certo coronel.

A coitadinha então passou dez anos sob a tutela do homem mais poderoso das redondezas, dono de todas aquelas terras. Ela foi educada, bem alimentada e bem vestida. Nesses dez anos que se passaram as únicas pessoas com quem a bela senhorita teve contato foram:

A madre superior do convento, uma tutora que ensinava língua inglesa e português, uma outra tutora ensinava as ciências exatas e tinha o garoto que entregava o leite, que era a única criança por perto, era a única pessoa com quem ela brincava o que formou um elo entre a menina adotada pelo senhor coronel e o menino, o meu filho, entregador de leite. Era uma tortura sem fim para ela ver os dias passando e o momento de conhecer seu noivo se aproximando-se. Três coisas a perturbá-la diariamente, se casar com um homem rico que não conhecia, continuar virgem até o casamento e estar apaixonada pelo jovem leiteiro.

As coisas nunca saem como o previsto e sempre o pior acaba acontecendo.
Foi durante a formatura escolar do meu quarto filho, a garota mais linda do povoado resolveu aparecer e desfilar para a plebe seu noivo recém apresentado.

Não é por nada não, mas o meu rapaz era bem dotado, bonito e completamente biruta. Sua mente só piorava com o passar do tempo. Manias de perseguição, galinhas degoladas em nosso terreno. Ele acabou perdendo a batalha contra sua própria mente, resultado do ano em que passou bebendo e usando drogas,ano em que passou no garimpo. E o mais engraçado de tudo é que eu também passei um ano na mesma rotina e não pirei, de qualquer jeito, mais uma vez meu filho seguiu os passos do pai, deixando o passado para trás, voltando a estudar mesmo tendo problemas da cachola ele venceu a loucura e concluiu essa etapa, tudo isso com intuito de terminar o ensino fundamental e pedir seu amor de infância à mão em casamento. Quando o filho surtou já estava longe dos bordeis à cerca de dois anos, ainda sabia como conquistar uma mulher sem ser rude. Pediu para ter a honra de dançar com a moça, esgueirou-se pelo salão de baile, fez o pedido em silêncio e ela aceitou dançar com o garoto familiar. Duas musicas, relembrando tempos de infância no quintal do convento despertaram a memória da menina, tudo isso sob o atento olhar do noivo.

Quando o abraço fica forte e ela sem querer esbarra nos dotes do rapaz, ficando vermelha que nem morango, entregando o sentimento estúpido. Deixar a menina assanhada na frente do noivo foi um erro insano. Por aqui até mesmo os mais jovens andam armados.

O rapaz noivo tinha vinte e três anos, era nascido com uma arma em mãos, puxou sua pistola fazendo com que as pessoas assustadas, corressem em direção aos cantos do salão.

Como o filho mais velho do coronel estava exibindo a sua pistola americana para o alto e fazendo mira na direção do meu rapaz, o primeiro disparo fez meu moleque perder a noção, a capacidade de pensar racionalmente foi embora, o fato de enfrentar um oponente armado não o deteve. Possuido ao ver a arma prateada apontando em sua direção, atacando descontroladamente vi meu filho como um monstro vampiro dos filmes da televisão.

Partiu pra cima do doutor que estava armado e sabia atirar. Levou o primeiro tiro no rosto, atravessou uma das bochechas, ele não parou, chegou até um palmo do deputado e levou outro tiro, dessa vez no pescoço. Sorte dele é que o doutor só queria machucar o rapaz apaixonado, momento em que ela a mais linda, prometida para o filho mais velho do coronel aos seis, pôs-se entre os dois homens acometidos por emoções distintas.

O jovem louco e apaixonado e um homem obcecado pelo desejo de possuí-la.

O largo vestido dela conseguiu bloquear a visão do deputado por alguns segundos, mesmo ferido o jovem apaixonado atacou cara a cara o homem obcecado.

Parecia um animal, mastigando com socos a carne do filho do coronel. Tão rápido que só teve tempo de fazer mais um terceiro disparo.


As pessoas conseguiram imobilizar e acalmá-lo, no que foi claramente o pior surto da vida dele. Meu filho foi baleado sim, mas é cabra macho e sobreviveu aos ferimentos, passou por umas duas instituições prisionais até ser liberado com dezoito anos, nos dois anos que esteve preso sofreu inúmeras ameaças de morte, mas agora que esta livre, casado com a menina mais bonita do lugarejo e morando em outro povoado, tem empregos com carteira assinada e tudo mais.
O meu quinto filho fugiu de casa com treze. Faziam três anos que ele foi tentar a vida na cidade grande, desde então não nos vimos mais, até que uma carta chegou pelo correio dizendo que ele havia contraído a tal de Sida, que iria morrer em pouco tempo. Dito e feito ele morreu em um leito de hospital por causa dessa tal de Sida. Nós choramos e eu enterrei meu primeiro filho, o quinto.
O coronel todo final de ano me pergunta: " Cadê aquele seu filho do capeta que tirou a vida do meu anjo? Quando o doido varrido do seu cria de Satanás com quenga suada passar nessa cidade, quero que você me avise miserável da moléstia, que esse vai ser o ultimo ano que ele vem e ceis escondem ele e aquela rameira ingrata". É claro que eu nunca aviso e todo ano é mesma coisa, ele fala que vai vir ppassar o natal com o povo, mas sempre acaba desistindo. Tomara que hoje no dia de natal ele passe com sua filha do meio e seu filho mais novo, porque se ele resolver nos visitar meu doidinho pode morrer ou até matar novamente.
É ai que eu começo a ficar bêbado, depois do quinto barril de cachaça já não me lembro de muita coisa, uns gritos, a privada do banheiro, vomito, tudo escuro e de repente eu acordo, mais seco que bolas de padre, com as calças sujas de bosta e um bocado de sangue que saiu junto com as fezes, meu filho mais novo entra no banheiro, ele tem só oito anos de idade:
-Oi painhô, vem ver o tio e a tia bonitona! Eles subiram no telhado não foi painhô? Não estão se mexendo e tão com corte de faca e furo de bala. Ô painhô, será que eles morreram?
Eu não sabia se chorava ou se retirava os cadáveres presos por pregos no telhado de nossa casa.
-Fala besteira não seu irmão vira é bicho se mexerem com ele... num pode estar morto, num pode ser que eles... aonde eles se esconderam dessa vez?
-Na caixa d'água abandonada, eles encontraram o tio e a tia só depois de procurar em tudo quanto é canto, os três homens do coronel só conversaram e então foram todos de carro para direção da casa do patrão. Depois disso minha mãe começou a chorar e foi pro quarto enquanto você estava com diarréia no banheiro, eu ouvi os gritos que só acabaram hoje de manhã...
-E o resto do ceis, num fizeram nada cambada de imprestáveis?
O segundo filho fala com a voz tremula ao pai:
-Tava todo mundo com sono e com cachaça na cabeça pai! Pegaram ele rápido demais eu vi, e eu até tentei avisar os outros mas ninguém acordava, eu tentei entrar na casa do coronel, mas os jagunços do homem me puseram porta fora. Por que pai, por que tinham que leva outro irmão e justamente hoje?
Vejo meu segundo filho chorar, e choro também, ele mal sabe que vou morrer de cirrose hepática em poucas semanas, cortesia das prostitutas em um bordel no meio da mata. Sinto-me como se já estivesse na metade do caminho da roça.

Na riqueza solitária

Eu também tenho um filho e ele tem oito também, ele vai para a escola particular com yogurt, ovos e bacon canadense forrando seu estômago, meu motorista o deixa na escola usando minha Mercedes serie "s", o transito da cidade grande o faz quase sempre chegar quinze minutos atrasado, mas eu não vejo problema nisso ele esta dentro do limite de tolerância de uma das mais renomadas instituições de ensino do país. Ele sai da escola ao meio dia e meu funcionário o espera pontualmente, ele vai para casa almoçar sua refeição preferida filé bovino grelhado, batatas sotê, ervilha no vapor e purê de maçã, ele então toma seu complexo vitamínico e vai ter aulas de Tênis em um clube do qual sou sócio. Quando começa anoitecer ele já esta em casa, de banho tomado e com o dever de casa pronto, ele eventualmente me chama para ver o novo jogo do vídeo game de ultima geração que comprei para ele, mas eu estou lendo o "New York Times", assistindo os tele jornais em minha televisão de quarenta e oito polegadas, enquanto bebo um conhaque de vinte anos e fumo um charuto cubano que comprei de Fidel Castro antes dos embargos comercias.
Meu rapazinho é filho único, a mãe dele separou-se de mim quando ele tinha quatro, (algo haver com o fato de que eu traia ela com minha secretaria, com minha diretora do departamento de vendas, com a professora do jardim de infância do meu filho e com uma enfermeira que conheci quando fui fazer uma cirurgia plástica nos lábios) como ela perdeu a guarda dele por causa de problemas relacionados ao uso abusivo de drogas ilegais, acabei ficando com ele, e não, eu não dou a atenção pessoal que um pai deveria dar ao seu filho, meu trabalho de Presidente de uma companhia farmacêutica toma todo meu tempo e tempo é dinheiro, status e poder, eu não quero chegar na velhice (que já esta próxima por sinal) e ter que depender do dinheiro e da boa vontade dos jovens dessa família? Nunca! Eu quero contratar uma enfermeira fogosa para me dar banho, viver em minha mansão fazendo orgias multi culturais com mulheres de todas as etnias ou raças, fundar um clube para velhos sacanas e ricos da mais alta cúpula do poder, é claro mascaras serão usadas para não serem reconhecidos preservando assim o anonimato tanto das supermodelos famosas, quanto dos chefes de estado. Praticando rituais pagãos, regados a viagra, absinto, virgens e sangue, eu quero mais é viver para sempre.
E meu filho? O que é que tem? Ele vai acabar se acostumando com minha ausência e vai tratar de procurar uma figura masculina em outro lugar, ele pode ter a sorte de encontrar um amigo mais velho que seja heterossexual, que tenha se esforçado para entra em uma boa universidade e que comece a fumar erva aos vinte três. No azar ele pode encontrar um amigo homossexual, que fuma maconha desde os treze e vai ser uma figura masculina na cama e na pobreza. Eu realmente espero que isso nunca aconteça o que pelo visto não deve acontecer, encontrei uma advertência na mesa da sala, o pilantrinha não fez a mínima questão de esconder o pedaço de papel que dizia que esteve envolvido em uma briga entre duas meninas, durante o intervalo ele beijou uma das garotas, e na saída beijou outra ocasionando a briga que deixou uma das meninas sem parte do coro cabeludo. Eu assinei a advertência e deixei-o brincar com seus joguinhos violentos, eles pelo menos deixam as crianças mais alertas quanto aos perigos do mundo contemporâneo.
É natal, a única época do ano em que posso ficar mais tempo com meu filho e familiares. É só uma vez ao ano mesmo. O primeiro a chegar é o sempre o bêbado do meu irmão mais novo, é só ouvir o barulho ensurdecedor da motocicleta e sentir o cheiro de cinzeiro e vodka barata que logo meu irmão se faz visível, ele e uma garota que ele ao que me parece, pegou em uma esquina qualquer e a trouxe com a promessa de um natal luxuoso.
Meu pai chega num táxi velho e eu o recebo com um abraço. Deprimido a cerca de três anos, datando do dia em que minha mãe teve uma série de derrames e faleceu em um hospital caro do centro. Meu pai não foi o único a sofrer com a morte dela, mas não é por isso você me ouve chorando escondido pelos cantos por durante três anos seguidos. Pobre papai...
Por ultimo e como de costume atrasada chega minha irmã do meio, ainda bem que ela acabou seu relacionamento com aquela gorda, feminista e chata. Eu me recordo do natal passado, meu garoto me fazendo uma pergunta nada discreta e bastante curiosa:
-Pai, você pode me responder uma pergunta por favor?
-Mas é claro filhão.
-Pai porque a tia anda de mão dadas só com mulheres?
-Por que meu filho sua tia gosta de lamber carpete. Ela não gosta de meninos filho.
-Quer dizer que ela não gosta de mim? Por que eu sou um menino...
-Não filho, sua tia te ama ela só não gosta de meninos dormindo com ela.
-Mas pai a tia é tão bonita, se ela gosta de meninas por que ela só namora essa mulher feia que mais parece um homem?
-Nessa você me pegou, eu acho que esse vai continuar sendo um dos mistérios da natureza humana.
Eis que finalmente chega o maldito Papai Grana, Noel exclusivamente para a única criança da familia. Do tio ele ganha uma jaqueta de couro com símbolos do moto clube de meu irmão que provavelmente comprou com o dinheiro da pensão que eu pago ele.
Minha irmã trouxe um enorme Camaro que se transforma em um robô ainda maior. Onde estavam minhas tias super modelos, lésbicas e descoladas quando eu tinha oito?

O que estou fazendo? Meu pai me bateria se me ouvisse falando das irmãs dele, que Deus as tenha, morreram durante o holocausto...
Por falar no velho. Ele senta ao lado do neto arregaça a manga esquerda e retira seu famoso relógio suíço, conquistado de um infeliz alemão que cruzou a mira de meu pai durante a segunda guerra, se ele esta entregando uma de suas relíquias ele só pode estar desistindo ou pensando no suicídio. Já era hora, cento e sete anos de idade pai deve ter sido muito ruim durante os anos noventa, ver Frank Sinatra e Fred Astaire morrerem em um mar música pop deixou meu velho amargo. Eu prometo que quando você morrer pai, vou pessoalmente tratar de publicar suas memórias e fazer um bom dinheiro com isso, afinal de contas sou eu que pago a gasolina do maluco do meu irmão, sou eu que cuido do seu neto garantindo assim a continuidade dos nossos genes e fui eu quem pagou as contas milionárias com os tratamentos que mamãe fazia para amenizar as dores de um tumor cerebral.
Para onde foram todos? Eu passei tanto tempo falando de mim mesmo que esqueci de botar meu filho na cama, chego no quarto dele e encontro minha irmã e meu filho jogando com controles no formato de guitarra, tomo um trago de conhaque e me sento na cama ouvindo "free bird" e me lembrando de como a vida sempre foi boa comigo e eu espero que meu filho e nossos descendentes sintam-se assim pelo menos uma vez na vida. A realização não é nada vazia, é cheia de sonhos que eu posso e irei realizar.
Parem o trem! Quero descer. Eu tenho vinte milhões de dólares em ações, eu sou dono de três estúdios, tenho uma Lamborghini, duas Ferrari e um Corvete, meu emprego me paga bem, mas só por enquanto, segundo meus cálculos eu levaria cerca de oito anos para me aposentar com meu salário atual, driblar os impostos através de fraudes é mafioso demais e ninguém quer problemas com o governo. Talvez uma ONG poderia me isentar impostos, não eu sou melhor do que isso. Vamos cérebro dourado, funcione! Farei melhor e serei o melhor...
Eureca! Vou criar à animação mais sublime que a humanidade já teve o prazer repousar seus olhos, com direito a tudo que a censura condena, mas tudo mesmo. Sexo; drogas; andróides; robôs; alienígenas; estupro; assassinato; pirataria; viagens no tempo; universos paralelos; demônios e anjos; pessoas comuns; tiranos e heróis; libertários e vilões; religiosos e insanos; monstros e princesas; política e magia; pais e filhos.
Uma animação com tantas referencias à cultura pop, que os desenhistas terão que trabalhar com monitores gigantescos, com tanto sarcasmo e desprezo pela humanidade, que as profissões de comediante e roteiristas tornaram-se uma!
-Filhote e maninha. Quero e preciso conversar com vocês, me encontrem dentro de cinco minutos na sala de televisão. Paaaiii, reunião na sala de TV em três minutos.

Sala de TV ocupada por um casal de drogados, e um deles é da familia:

-Vocês dois, parem de fornicar no meu sofá e retirem-se desta sala, por favor.
-Tudo bem, tudo bem mano, é só você me dizer a senha do baú mágico que eu e a gatinha saímos da sua casa e só voltamos na virada do ano.
-Mas que merda! Seu sanguessuga, parasita, me sigam, eu não vou te dar minha senha, você não faz idéia dos tipos de drogas que estão lá , e sabe ainda menos sobre o tipo de problema que elas podem me trazer. Eu vou entrar no cofre, não saiam da sala de segurança em hipótese alguma.
-Três pílulas de cristal mdma, trinta gramas da boliviana, que por sinal já esta começando a perder suas propriedades estimulantes e cinqüenta gramas de maui uai que já mofou. Aqui esta. Desapareçam da minha frente, tenho uma reunião e estou atrasado um minuto.
Maldito irmão esse que eu tenho! O imprestável não é capaz nem de conversar comigo por uma hora sem pedir dinheiro ou me meter em problemas. Pelo menos ele não vai me perturbar por cinco dias, esse é o lado bom da coisa.
Meu pai dormiu em minha poltrona ergonômica, minha irmã estava ao telefone conversando em alemão com alguma amiga privilegiada e meu filho estava jogando em um aparelho portátil:
-Eu tenho um anuncio importantíssimo para fazer meus caros familiares. Eu decidi finalmente me aposentar enquanto ainda tenho cinqüenta anos e parte da minha vitalidade ainda esta ativa.
Meu filho grita um "yeah" tão alto que meus ouvidos quase explodiram, um "yeah" tão espontâneo que eu só podia dizer:
-Filhote, sem histeria por favor. Quando você estiver com dezesseis, me escute com atenção, nada mais nada menos que dezesseis, você vai me chamar para produzir sua própria banda de rock!
-Maravilha! E eu pai, vou com certeza me esforçar bastante pra atrair fãs e fazer muito dinheiro.
-Esse é meu garoto! Eu recebi um relatório do meu contador sobre minhas finanças, fiz cálculos futuros e descobri que no meu emprego atual recebo somente sete salários mínimos e sem participação nos lucros da empresa. Nesse ritmo financeiro me aposentar será possível somente em oito anos, cada ano que passa meu corpo fica mais frágil e decadente, esse é o ano em que eu quero e vou me aposentar...
-Então espertalhão, como? Como você pretende conseguir sua aposentadoria precoce? Conte-me, qual é a nova idéia para concentrar o capital no seu bolso e fuder com uma família miserável do terceiro mundo?
-Calma mana, muita calma, tem alguma coisa errada contigo? Eu não me lembro de você reclamando quando eu paguei pelo seu curso de moda na "London College of Fashion", quando seu agente pediu demissão durante o "Paris Fashion Week", quem foi que cuidou da sua agenda e ainda agilizou um contrato com a "Vogue"?
-Irmão, me desculpe, você sabe que é meu favorito. Eu tenho algo também que eu gostaria de anunciar.
-Maninha se você quiser conversar a sós, minha biblioteca é no fim do corredor?
-Vamos, é importante.
Ela esta a cada dia que passa cada vez mais bonita, minha irmã parece preocupada, eu sinto que é uma má noticia seguida de lagrimas:
-Feche a porta, por favor.
-Irmão, você se lembra da minha ex-namorada não?
-A gordinha feminista que gostava de constranger homens com piadas sobre objetos fálicos? Sim infelizmente, aquela mulher parecia mais manati do que um ser humano!
-Esse é um assunto sério mano, sem deboches. Ela me ligou se desculpando por tudo, somente ao final dessa conversa sádica jogou-me a bomba, ela descobriu em um exame rotineiro que contraiu o vírus da "aids", eu estou assustada mano, tenho medo de fazer o exame e dar positivo, mas ao mesmo tempo preciso descobrir se esse porra ta em mim. Eu estou toda borrada de maquiagem não?
-Esta sim maninha, o banheiro é nessa parede falsa empurra e puxa que ela abre.
Ela esta no banheiro e sei que vai demorar. Escapo rapidamente para o bar, me sirvo uma dose de vodka russa, um pouco de licor de menta, uma dose de absinto, suco de limão, gelo e açúcar, preparo outro drink desses e chego bem a tempo de ver minha irmã chorando no ombro de meu pai.
-Se você esta aqui pai, é por que provavelmente já ouviu a má noticia, eu não preciso de ajuda financeira de espécie alguma para lidar com esse problema, fique fora disso seja um bom avô e bote nosso guri na cama por favor pai, já passa da meia noite.
-Ele já esta dormindo, dois capítulos bem narrados de J.R.R.Tolkien e eu coloco até a Kate Moss sob efeito de cocaína para dormir. E quanto ao dinheiro do seu tratamento filha, fique calma que seu irmão mais velho vai cuidar de você pagar por suas despesas.
Mas que caralho de asa! O velho não caiu no truque do "não deixe que eu pago". Fazer o que? Não vou deixar minha irmã enferma e sem assistência, uma coisa é certa, ela vai ter que me pagar com seu intelecto conhecedor do subversivo, ela pode me ajudar a entender esse mundo marginal e completamente desconhecido por mim:
-Amanhã mesmo nós vamos falar com meu médico e providenciar o exame... Toma um trago desse drink que eu fiz especialmente para você que já já você vai entrar na toca do coelho para o país das maravilhas.
Uma hora e sete drink's depois, começamos a discutir minha idéia como dois insanos nas nuvens. Minha irmã conhece, assistiu e criticou todas as animações e series famosas já produzidas pelo homem contemporâneo. Das mais infames e polemicas, até as mais celebres e comportadas. Passamos a madrugada acordados, imaginando absurdos para um desenho animado sem limites...
Ela me disse como seria difícil tornar possível minha idéia, perder não era uma opção.
Como incomodar o monopólio dos grandes estúdios sem ser assassinado durante o processo?

As doses da poderosa mistura nos deixaram confusos e excitados, minha memória falha com vergonha do que fiz. É melhor esquecer-se do que se arrepender.
Dormindo e entorpecida minha irmã ronca na sala de televisão, ouço barulhos no quarto de meu pai, meu filho corre gritando pelo corredor:
-O vovô caiu pai! Prendeu o pescoço pai, ajuda ele pai!

Suas memórias valem ouro e seus pecados diamantes.

4 comentários:

hierofante disse...

marcello inaugurou um novo genero literario: o sertao punk gotico

hierofante disse...

caralho velho, tu é tipo um guimarães rosa, só que ruim.

Eduardo Ferreira disse...

li isso bebão e não quis comentar, agora mais sóbrio posso dizer que finalmente li algo muito ruim aqui.

Xaropepratosse disse...

Eu gostei, uma longa história sobre diferenças sociais, economicas e éticas.
Somos homens em um mundo desigual, nossos filhos merecem dignidade doce e sobre meu olhar a vergonha é amarga.